sexta-feira, 23 de outubro de 2009


JESUS TACOU O MIXER NA CRUZ

O episódio envolvendo o novo gostoso da Madonna e o excelente DJ Tocadisco é um sinal dos tempos. É o “poser” pré fabricado e com as costas quentes (ou o pinto quente) versus um profissional verdadeiro, de qualidades comprovadas e currículo (na área em questão) invejável? É. É uma palhaçada? É!

Não quero fazer “a velha”, quero fazer “a crítica”! Porque, em tempos de acesso ilimitado a informação; em tempos em que criar-se a situação vale mais do que a ação que se tem perante tal situação; realmente, podemos nos tornar o que quisermos. O que faz da Xuxa, uma profeta, lembra: querer, poder, conseguir? Simples assim!
O problema, na minha opinião, não é o produto de qualidade duvidosa, com prazo de validade curtíssimo; cada um que se entupa da droga que bem entender. A coisa fica criminosa é no âmbito da propaganda enganosa. E fica frustrante e desesperadora, quando a propaganda enganosa não engana mais ninguém e mesmo assim o produto vende bem! Quem come churrasco, pouco se importando se é de gato ou de vaca, um dia pode chegar em casa e encontrar a caixa de areia vazia!

E como toda opinião que preste passa, necessariamente, por uma experiência pessoal, vamos a ela: profissão: “DJ”. Os “DJs” entram num grupo de profissionais que sofrem com a facilidade e a aparente falta de pré requisitos que seus ofícios possuem para muitos. Muita gente pensa que não é preciso formação, experiência profissional, conhecimento específico e talento para lidar com música, com informação, com ficção... isso são coisas para quem tem um “trabalho de verdade” e lida com órgãos vitais, com dinheiro, com cáries...

Assim, a Luciana Gimenez é apresentadora, o Cacau Menezes é jornalista, a Fernanda Lima é atriz e apresentadora, a Adriane Galisteu já escreveu um livro, o Créu é música e a Maísa ainda vai ser presidente do Brasil, e o Sérgio Mallandro, provavelmente, o vice.

Eu não sou DJ... ainda. O termo DJ é um rótulo que precisamos vestir, para sermos mais bem identificados pelo senso comum; hoje se atribui esta designação para toda e qualquer pessoa que “bote som” numa festa.

Mas o real DJ é outra coisa. Basta dizer que um DJ de verdade faz as suas próprias mixagens, nunca de outros, como bem apontou o Tocadisco em relação ao Jesus da Luz.
“Botar som” foi algo que surgiu por necessidade, ao produzir festas onde eu cantava com a minha banda. A partir daí me apaixonei pelo ofício, é viciante mesmo. Só que a partir daí, decidi levar a sério e aprimorar meu trabalho ao ponto de ter direito de ver meu nominho num flyerzinho com essas duas letras maiúsculas na frente dele.
E não precisa fazer uma faculdade, nem mesmo um curso profissionalizante, ou viajar pra Londres, ainda que tudo isso seja muito bom. Na verdade esta chegando a hora em que será obrigatório ter um registro profissional e submeter-se a uma avaliação. O que é ótimo. Mas estou falando de um estágio anterior.

No meu caso, a necessidade gerou comprometimento, em primeiro lugar; o que é fundamental para gerar uma dinâmica profissional, já que as pessoas divulgam, realizam seus eventos em locais públicos e cobram por isso, nada mais justo que você, no mínimo, se leve a sério. Caso contrario, o melhor é fazer festinha americana em casa: as meninas levam salgadinhos e os meninos levam refri!
Depois é preciso saber se existe uma “faisquinha” de talento em você para ser lapidada, desenvolvida. Como ouvi de uma modelo na TV: você tem que insistir, não desistir na primeira. Mas lá pelo vigésimo fracasso, talvez seja a hora de pensar que essa não é a sua praia!

E daí pra frente, com licença, vai à luta Fernanda! Vai trilhar o caminho que só cabe a você saber, rumo ao desenvolvimento pleno da função que você escolheu exercer.
Eu to seguindo o meu, falta coisa pra caralho, mas quando algum profissional da área reconhece valor real no que faço, tenho certeza de não ser aquela feinha de um metro e meio que sonha ser modelo.

O Jesus tacou o mixer na cruz. Podia ser um modelo honesto, mas, ambicioso, quis ser também um DJ charlatão. O consolo é que, quando a Madonna enjoar do pinto dele, ele some rapidinho.

No fim das contas, o povo sabe, ô Tocadisco, que ele não é DJ, pagam pra ver o pau amigo da Madonna mesmo. Foda é ele zonear mais ainda o trabalho dos DJs pra aparecer, podia simplesmente posar nu, desfilar, ou então fazer uma performance discotecando com o pinto. Nada contra querer ver o cara, curtir o cara, mas na função certa. Eu acomodava ele na minha caixa de areia, sem problemas. Mas jamais pagaria 30 mil pra ele tocar na minha festa, nem que fosse punheta!

Zuleika Zimbábue, 21|10|2009

domingo, 6 de janeiro de 2008

A fantástica fábrica de indivíduos


[The Wall. Dir. Alan Parker]









A fantástica fábrica de indivíduos.
por Zuleika Zimbábue

25 de abril de 1984. Dia da votação da Emenda Dante de Oliveira, que concretizaria a possibilidade de termos novamente eleições diretas, e democracia, no Brasil. Eu tinha nove anos. Era uma criança burguesa e gorducha. Filho de empresários do ramo “calçadista”. Passávamos o final de semana num rico hotel na cidade de Gramado, serra gaúcha. Era véspera de Páscoa, pois me lembro que assistia, com certa irritação, “A fantástica fábrica de chocolate” na “Sessão da tarde”, sendo interrompida constantemente pela transmissão, ao vivo, da tal votação. Era uma criança, na década de oitenta, ainda sem o up-grade nos neurônios, que as crianças parecem receber tão cedo hoje em dia. Não tinha a menor noção do que estava acontecendo, da importância daquela votação (ainda que frustrada naquele dia), da histórica mobilização popular que acontecia em volta daquele momento decisivo para o país. Para todos os indivíduos, todos os cidadãos. Era um pequeno burguês alienado com a nata do pensamento: “governe quem governar, o nosso está garantido”.


Mas eis que o país parecia amadurecer, abrindo-se novamente para a democracia; fosse por pressão popular, ou pela ineficácia comprovada do governo militar, teríamos novamente eleições diretas, teríamos assegurado nosso direito de eleger nossos governantes! 1989, agora sim! Poderíamos mostrar nossa sabedoria, teríamos a recompensa máxima de anos de luta pela abertura política! Mostraríamos à “eles”: um país próspero e democrático, governado por um civil, eleito pelo povo! E assim fizemos! Colocamos Fernando Collor de Mello na presidência da república! (...) Bom... enfim, dizem que o amadurecimento verdadeiro é sempre tortuoso. Também, não votávamos pra presidente há muito tempo. É preciso dar um desconto. Aprender a votar pode levar muito tempo. É preciso muito estudo. Devia haver faculdade pra isso até... Mas quem seria o professor, não é?

Nos tempos das contas confiscadas (congeladas) pela Zélia Cardoso, eu já não era mais um alienado... Mas ainda era um burguês. Nossa empresa sobreviveu ao Plano Collor, vejam vocês! Mas não sobreviveu à corrupção do país. Quando minha mãe decidiu vender a empresa, os compradores “conseguiram” uma concordata falsa, fecharam as portas e deram o calote em todo mundo: funcionários, fornecedores, no governo e, é claro, em nós. Nunca recebemos nada pela venda da empresa criada pelo meu pai, com mais de 30 anos de funcionamento.


Mas fiquem tranqüilos, não vou cair no melodrama. Eu tinha 17 anos e acabara de ingressar em um grupo de teatro; minha mais nova, recém descoberta, paixão. Um grupo peculiar, formado por pessoas mais velhas que eu; uma jornalista, uma publicitária, dois professores, um pequeno empresário, duas artistas plásticas, uma advogada e um juiz. Sim, não era um grupo de teatro profissional. Contudo era totalmente politizado; dentro de princípios socialistas. Na época que ingressei no grupo, eles estavam abandonando o palco italiano, partindo para o teatro de rua, para o contato mais direto com o público; para uma relação mais sólida entre a mensagem crítica, social e política, e o seu receptor mais importante, o “cidadão comum”. Minha primeira experiência efetiva e irreversível como ator foi encenando um sketch nas portas das fábricas, em Novo Hamburgo (RS) em 1992. Fazendo campanha política para o candidato à prefeito do PT.


Claro! O PT! Que outro partido oferecia tamanha identidade ideológica para intelectuais comprometidos com a democracia e a justiça social? Que outro partido oferecia uma saída nova para o triste quadro político, que parecia (parecia?) irremediavelmente consolidado? O teatro e o PT foram, sem dúvida, ferramentas sem as quais eu jamais teria me livrado do pensamento burguês individualista. Durante meu envolvimento, não filiado, com o partido, conheci sua luta histórica por direitos e oportunidades iguais na pirâmide social; a histórica e fundamental luta pela sindicalização e a defesa dos direitos dos trabalhadores. E, finalmente aprendi a respeitar e admirar um homem e sua luta: o nosso atual presidente.


E assim, como a ordem cronológica deste artigo me obriga, chegamos aos assustadores dias correntes. Antes tivessem meus heróis na política brasileira morrido de overdose, como na música do Cazuza. Aqui, hoje, eles morreram em vida, pasteurizaram-se de forma vexatória, prostituíram-se, nos deixaram sem opções e, seu pior legado, é a completa apatia, o desinteresse e a desinformação de uma nação inteira. O povo cansou. Se o voto não fosse obrigatório, como nos EUA, talvez uma parcela bem maior da população aqui não se daria ao trabalho de sair de casa para escolher entre um bando de clones, ou seja, nosso cenário político atual. Daí sabe-se lá que George Bush elegeríamos aqui. E a desculpa de que não há uma ditadura para mobilizar a nação, nem um presidente que abusava do bom senso para roubar o país, como o Collor, não cola. Até porque, em muitos aspectos nossa realidade é pior do que nos tempos da ditadura, ainda que em outros aspectos não seja. E quanto a abusar do bom senso para roubar o país... “Faz favor né”! não sei se podemos nos dar ao luxo de não votar, acho comodista. O caminho mais fácil. O certo seria educar e informar todo mundo. Politizar todo mundo.


A apatia política coletiva que vivemos no Brasil, instituiu-se a partir de duas “faltas”: a falta de conhecimento, de informação e a falta de opção no panorama político do país, dos políticos disponíveis no mercado. E o mercado também! Esse capitalismo colonial que ainda vivemos, que reforça todo os dias aquele pensamento, “governe quem governar, o nosso está garantido” (nem que “o nosso” seja uma cesta básica em troca de voto); ou seja, somos uma nação despedaçada, sem esperança. A cada dia que passa cristaliza-se mais e mais a idéia de que: “O que importa é fazer o seu. Do jeito que for. Do jeito que der. O resto que se exploda!” E aí está o nó, porque a alienação política só pode ser vencida coletivamente. Quando superarmos a triste constatação feita por Nelson Rodrigues, de que “toda a unanimidade é burra”. Porque tem sido mesmo não é? Somos um povo, cuja grande maioria, ainda não tem acesso à informação, não tem nem o que comer. E, sem informação, não há o quê construir.


Precisamos aprender. Precisamos de conhecimento. Para acharmos meios eficazes de cobrarmos honestidade e justiça nesse país. Para acharmos algo novo no horizonte, que não seja mais do mesmo. Dia desses, o nosso presidente (esse cara que um dia eu admirei) disse que não quer indicar nenhum sucessor para a presidência; porque ele acha a alternância de poder um fator importante na democracia. Seria, se junto com os “governadores” mudasse a forma de governar. Mudasse para algo diferente dessa farsa que vivemos, onde achamos que está tudo bem porque a inflação está sob controle e sobra um dinheirinho pra fazermos uma prestação nova no comércio.


Mas essa mudança, profunda e radical, é para países com pressão social de fato. Países portadores de feridas históricas, como a Alemanha, onde o povo sabe dar valor a liberdade e exige seus direitos como poucos! Um povo que amadureceu a força. Como eu, modéstia a parte, depois que meu castelo pequeno burguês desmoronou. Graças a Deus, tenho certeza que sou uma pessoa bem melhor do que teria sido lá no alto do castelo. Mas o sonho do brasileiro, ainda é o sonho do pequeno burguês. Os nossos exemplos são esses. O Lula virou um alienado, daqueles que “não sabe” o que acontece ao seu redor. E se você entrar numa sede do PT hoje (pelo menos na sede estadual em Florianópolis – SC, tenho certeza) você vai encontrar um bando de “novos ricos”, de carro importado, tênis Nike e obesos, de tanto churrasco!


Pequenos valores, exceto os calóricos. “Novo riquismo” colonial. Pequenas crianças gananciosas, ávidas pelos novos doces que, agora, podem provar, nessa “Fantástica fábrica de indivíduos”. Indivíduos, no pior sentido da palavra: seres isolados em suas ambições mesquinhas e pessoais. Egoístas e alienados, ei-nos aqui!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Arte que faz sentido para todos os sentidos




Toda arte é um produto. Algo para ser consumido. Tem um preço. Um valor embutido em cada produto artístico no mercado. E mesmo aqueles que estão fora do mercado. Se você não estabelecer o seu preço, o seu valor, alguém o fará por você!

Toda arte é divina. Transcendental. Só deveria chamar-se de arte, obras que, de fato, nos “tocassem” profundamente. Obras que nos levem a crer! Que nos levem para cima ou para baixo; para o riso frouxo ou para as lágrimas convulsivas; para a séria reflexão ou para o gozo enlouquecido; as grandes obras, aliás, fazem tudo isso.

A boa arte é uma equação: entre a centelha divina, o talento; lapidado por anos de labuta (salvo os casos raros de genialidade) e a inteligência comercial, a esperteza mesmo, a consciência prática do mundo em que vivemos e de como colocar a nossa nobre inspiração artística em contato com esse mundo; fazendo sentido nesse mundo; comunicando-se com esse mundo! A arte só faz sentido quando ela se comunica. Emissor, mensagem e receptor; assim mesmo, bem acadêmico! Vale para qualquer manifestação artística. Se não houver comunicação não é arte. É masturbação, por mais bela e inspirada que seja!

Então, se a comunicação é o ar que a arte respira, o caminho natural de qualquer bom produto artístico, bem como a ambição de qualquer bom artista, é a popularização!
Ser popular, ou de forma abreviada... ser pop! Não é? O problema é a carga que tais rótulos, como “pop”, carregam hoje em dia. Eu confesso pertencer a uma linha de pensamento bem simplista nessa área. Pop é popular, ou seja, tudo o que possui ampla inserção na sociedade. Por mais “eruditas” que sejam as convicções do artista, ser popular, em última análise, é o que todo artista almeja!

Mas nem tudo que é pop é bom! Claro! O maior problema para a popularização de um bom produto artístico hoje são os critérios impostos pelos veículos de comunicação em massa. Quando se pensa em atingir milhões de pessoas, antes de qualquer coisa; visando, sobretudo, o lucro (pois estamos falando de grandes empresas, que não podem “se dar ao luxo de ter prejuízo”), inevitavelmente ocorre um empobrecimento da linguagem, do conteúdo, do produto artístico como um todo. E a equação acaba muito mal feita, mas dá lucro!

Daí acabam aparecendo as bostas imensas! A mídia brasileira é especialista em manipular a opinião pública no mau sentido! Quem disse que o povo gosta da banda Kalypso? Quem disse? O Faustão. Trata-se de um negócio. Como um anúncio, só que feito de uma forma duvidosa. Não é uma propaganda no intervalo comercial que diz: comprem esse CD que é bem legal. A estratégia de marketing mais eficaz atualmente passa pela opinião de personalidades públicas, como o Faustão. O cara passa um mês anunciando “a maior banda do Brasil!” “A maior banda do Brasil!” Pronto, era a maior banda do Pará, agora é “a maior banda do Brasil”.

Mas não vou entrar nesse caminho, senão esse artigo não termina nunca; pois esse é um problema de informação, de acesso à informação, de educação. A TV aberta é a maior formadora de opinião, por falta de acesso da maioria à coisa melhor. Ela aceita esse rótulo de educadora, trabalha em prol dessa imagem e oferece um conteúdo cada vez mais pobre. É triste, mas tem gente que se guia pela opinião do Faustão, do Jô, até do Cacau!

Mas eu quero defender a idéia de popularidade, na sua via positiva. Não falo dessas negociatas entre grandes produtores e grandes empresas. Falo de trabalhos valorosos, que rompem o ostracismo por serem obras completas, que falam a todos os sentidos: é erudito e popular, reflexão e entretenimento, prazer e angústia. É um erro histórico separar essas idéias. Elas dependem umas das outras para terem sentido.

A verdadeira arte é a mais refinada, a mais erudita, a mais complexa; mas atinge milhões. Em diferentes níveis, tudo bem; é daí que vem a sua riqueza, sua complexidade, sua beleza. É a música, não só com arranjos geniais, mas com letra, com performance. É a dança, não só com plasticidade, mas com conteúdo. É o filme, não só com humor e efeitos especiais, mas com argumento e atuações de qualidade. É a obra completa! Total! Que se comunica com todos os sentidos. Shakespeare fez isso. Hitchcock, Spielberg; Jerry Lewis; Chico Buarque; Chico Science... Só pra citar grandiosos exemplos. Tanta gente aí que é boa e popular.

Sejamos tudo! Sejamos nós! Sejamos felizes!

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Sexto tiro - 05/12/2006



Deus é você, o diabo, eu, o Cantus Firmus, as baratas e tudo mais que existe.


A palavra é deus. Deus não é palavra. É sua reflexão. Seu reflexo. Sua ação. A palavra posta em prática, que deixa de ser palavra, por jamais caber nela. Sua transformação. Seu oposto, sua antítese. Deus não é tese. Não é teoria. Tão somente prática. Toda e qualquer prática está impregnada de deus.

Simpatizo com pouquíssimas religiões. Não pratico nenhuma. Os rituais e o respeito individual do Candomblé são fascinantes, ainda assim, estou longe de ser um praticante. Mas, a cada dia que passa, sinto mais e mais presente, a me rodear, o invisível, o misterioso, o que te arrepia a nuca e atravessa o mundo indiscriminadamente; aquilo que, no ocidente, convencionou-se resumir na palavra deus.

Não acredito que nenhuma bíblia, nenhuma palavra, nenhuma língua, nenhuma tábua, tenha sido forjada por mando divino. Pois no divino não há o mando. Se deus é toda a criação, então não precisa da palavra. O homem sim. São raras as palavras dos homens que valem a pena serem guardadas. E, com certeza, não estão nas cartilhas religiosas. Deus não é palavra, é planta, areia e mar. Não somente o homem é a imagem de deus, mas o sapo a barata e a minhoca também. Não só as virtudes, mas os vícios. Não só a beleza, mas o indizível horror. Deus tem todas as caras do mundo. Inclusive a do diabo.

Deus e o diabo são vizinhos de longa data. Como siameses. Moram no mesmo condomínio, dividem o mesmo banheiro e gerenciam o mesmo negócio; um ciclo contínuo, um experimento adolescente para a feira de ciências, uma torta espiral, de infinitas formas de vida, que evolui e involui, lenta, sempre a caminho do mistério. Deus e o diabo jogam o melhor jogo do mundo.

O homem é peça destacada na configuração atual do tabuleiro. Ontem perdeu a vez de jogar e amanhã, talvez, caia na casa do “volte para o início do jogo”. E seremos subjugados por uma forma de vida inteligente superior e tudo acabará pra nós; no melhor filme catástrofe de todos os tempos: a raça humana julgada, por alienígenas mais inteligentes que nós, indigna de prosseguir sua existência; por conta de seus atos vis, provavelmente de americanos: Hollywood seria nossa maior punição. Para as “pecinhas” arrogantes do tabuleiro. Para os que desafiaram o sonho de liberdade, de um “povo democrático”, que só queriam ajudar seus semelhantes e acabaram matando todo mundo.

Mas ainda assim somos livres. Porque deus é Sartre, mas também é Napoleão. A ilusão da liberdade. A alma inquieta. Angústia apaziguada somente no reencontro com a natureza. No reconhecimento de deus; da presença do divino e do mistério na nossa vida medíocre. Deus é simples, quando se aceita seu mistério.

O homem é carente e inseguro. Por isso que o simples e instintivo ato de religar-se, está impresso em tantas encadernações e línguas distintas. Deus não cobra dízimo, porque já nos possui por completo. Enoja-me a manipulação da ignorância através da fé, da carência e do desespero humanos. Inspira-me atos terroristas. Arcanjo Gabriel no extermínio de um mal inquestionável. Eu desafio qualquer pastor desta terra a me curar! Deixo até escolherem o vício, que são muitos, todos divinos. Deus é amor, sob qualquer forma, desde que recíproca. E é piegas mesmo, como não ser, se somos patéticos.

Deus também não é o medo e a punição cristã, que não cobra dízimo, mas pode te mandar pro inferno. Para outro inferno. Mas as grandiosas obras arquitetônicas erigidas pelo cristianismo, são moradas de deus. Também. Não pelo cristianismo, mas pela criação magnífica do homem, pura arte na forma de arquitetura. A verdadeira arte é sempre obra de deus, pelas mãos do homem, a criação recriada, reprodução da vida em cores invisíveis; o mistério desvelado, louvado, perpetuado.

O artista verdadeiro, aquele que aceita o mistério e reencontra o mágico, em um ritual, aonde ele conduz e compartilha o divino em sua manifestação mais sublime: a arte; esse sim, é o verdadeiro soldado de deus. Não os sacerdotes e seus sermões.

Artistas! Como Jefferson Bittencourt e o grupo Cantus Firmus; homem de deus, ciente do poder transcendental de sua arte, grandioso maestro, mediador de experiências únicas, de magia, de encontro, de reconhecimento e significação. Poder divino de poucos, que não foram escolhidos; são abnegados, devotos de seu ofício, sua arte, seja qual for. Um concerto do Cantus Firmus é o melhor exemplo que vi atualmente do que estou falando. Condutor radical para um estado diferenciado. Música em quatro dimensões, visível ao espírito Quem precisa de bíblia pra falar com deus, depois de ver os caras? Quem precisa falar?

O livre arbítrio é o jogo. E deus descansa nas sombras, a nossa espera. Numa oração ancestral ou no mais moderno espetáculo; em catarse coletiva ou na mais absoluta solidão: escreva sua bíblia. Batize o seu senhor. Porque vós, também... sois deus! Ó fardo libertador. Cruz, da qual não há como fugir.




Agradeço ao Marcelo Pimenta que me aconselhou rezar; pela primeira vez repeti esse ritual espontaneamente, originalmente. Entendi cada palavra da ladainha, e pude respondê-las com ação.

Agradeço ao Cantus Firmus – Beatriz Sanson, Maria Cristina Figueredo, Jefferson Bittencourt, Eduardo Serafin, Daniel Signorelli, Marcelo Aguiar – por nos proporcionar uma experiência de pura arte, tão completa, tão tocante, tão maravilhosa. Especialmente agradeço ao Jeff, que me faz chorar sempre com sua arte. Um choro contente, ancestral, da alma mesmo, revelador; do quanto a palavra “arte” pode significar.

Quinto Tiro - 03/10/2006




Diga não às drogas?

Eu uso “drogas”. Muitas “drogas”. E você, com certeza, também. No mundo em que vivemos é impossível não entrarmos em contato com elas: as “drogas”. Nossa natureza humana nos impele inevitavelmente a miserável condição de viciado, “drogado”, repleto de “droga”, a própria “droga” em si; num eterno estado de consumo, rodeado de muletas, estúpidos hábitos, sugando um efêmero prazer, que nos retarda aos poucos e, num bizarro paradoxo, nos mantém vivo.
A grande maioria das “drogas” que alteram a consciência foram descobertas pelos homens enquanto medicamento, uma tentativa de cura para os males que nos afligem: os tumores e as tristezas; as viroses e as vergonhas. São materiais, palpáveis, fáceis de detectar, de encontrar, de conseguir.
Mas existem aquelas que não se pode tocar com os dedos, mas que nos infestam a existência. Escapam da definição convencional de “droga” e, assim, perpetuam-se. Recebem outros nomes, são invisíveis enquanto “droga”, até mesmo em nossa frágil consciência, que ignora o fato de já havermos sucumbido.
Algumas palavras possuem um largo espectro de definições. A “droga” é uma delas. De que tipo de “droga” quero falar? De todos que conseguir encontrar em minha própria vida. “Drogas” químicas. “Drogas” eletrônicas. “Drogas” psicológicas. “Drogas” verdes. “Drogas” tarja preta. “Drogas” emocionais. “Drogas” que andam em duas e até em quatro patas.
Toda “droga” traz prazer e dor. Benefício e malefício, caso contrário, não estariam entre nós desde os primórdios de nossa existência; em todos os rituais, na gênese da arte, na criação dos artistas, no tratamento dos dementes, na educação das crianças, na mente entorpecida dos assassinos, por toda a natureza, em fartas doses.
Algumas apresentam tremendo desequilíbrio entre o prazer e a devastação que promovem, ao passo que outras, bem menos destrutivas (embora ilegais), são estigmatizadas e marginalizadas, tornando-se bodes expiatórios que camuflam a ação de nefastas indústrias que atuam sobre nossas carências.
São as minhas carências que me levam até práticas constantes, repetitivas, exacerbadas. Tudo que é em demasia torna-se nocivo, prejudicial, não importa o objeto ou substância envolvidos na ação. Se a dependência não é somente química, as “drogas”, obviamente, também não são.
E se nossa sina é viver entre elas, sejamos modernos e globalizados: vamos escolher as que nos oferecem a melhor proporção entre custo e benefício, dano e prazer!
Eis a minha lista pessoal!

Maconha. A erva da Jurema! O que posso dizer? O preconceito em torno da maconha é eminentemente social. “É droga de pobre, de vagabundo”! Se o cara bebe, “coitado, tem problemas”! Mas se fuma maconha, “vagabundo”! Numa sociedade hipócrita como a nossa, tudo bem morrer de cirrose, cachaça não é ilegal; e “droga” limpa por aqui é cocaína, que não faz aquela fumaça fedorenta. Mas não se engane, embora menos nociva que o álcool, o cigarro, blá blá blá, maconha faz mal! Fode sua memória, sua resistência física, seus pulmões, sua motivação pra viver, e vicia sim, viu!
Televisão. Está em todos os lares e famílias. Amplamente aceita na sociedade, mas, como qualquer “droga”, precisa ser bem escolhida, para fazer bem; tirando tudo que faz de mal. Estou falando da programação, não da tela plana de plasma. Uma boa programação, bem selecionada, pode ser um bom entretenimento e, até, instrutiva. Mas se pensarmos no monopólio da TV, como forma de entretenimento para as grandes massas neste país e no analfabetismo funcional deste mesmo povo; na falta de hábito de leitura; no senso comum estúpido da população... meu Deus! Claro que é uma “droga”! Claro que vicia! Claro que pode ser manipulada de acordo com interesses específicos; de forma subliminar ou escancarada mesmo hoje em dia!
Café. Êta combustível corrosivo! Café, café, café! Sou tão viciado que tomo um canecão de noite e durmo como um bebê!
Chocolate. Na falta de sexo, não há nada melhor; cientificamente comprovado viu! Eu trepo com uma barra inteira sempre que possível! Mas no dia seguinte, duas horinhas trepando com minha bicicleta, a Tropical, com freio de pé! Essa sim, não tem nenhuma contra-indicação.
Coca-cola. Meu deus! Não consigo parar! Também indicado para desentupir pia!
Sexo. Sempre que possível! Com poucas restrições! Estando tudo encapadinho, vambora!! Intercalado com o chocolate, que tem sido mais freqüente... merda!
Dinheiro. Ai fazer o quê? Adoro. Vicia tanto. É a “droga” mais aceita, se você não tem um pouquinho dela, você não existe para o mundo meu bem!
Política. Outra “droga” indispensável para nossa sobrevivência, a não ser que você seja um eremita numa caverna no alto de uma montanha. Mas até esse cara tomou uma decisão política. A política se torna realmente nociva no âmbito da sua representação pública: com os políticos. É neste extremo da relação humana que o seu cérebro pode ser derretido. Haja visto que reelegeram o Collor, o Maluf... (?) O povo tem merda na cabeça, ou o quê? Pelo menos conseguimos garantir “segundos turnos”! Nem tudo está perdido!
Nicotina. Essa é podre. A campeã absoluta na dependência, química e psicológica, pois torna-se complemento indispensável para outras “drogas” e ações: com a cervejinha, o cafezinho, depois do almoço, do baseadinho, para escrever este artigo, para esperar o ônibus. É a “droga-encosto”; não serve pra nada, mas ta em todas!
Enfim, trocando, por alguns instantes, a hipocrisia por um pingo de sensibilidade, qualquer imbecil poderá concluir: as drogas fazem parte da nossa composição, assim como a água. Se nos dominam, é prisão. Se as dominarmos, é a chave para liberdade.
Minha apologia não é para todos saírem se drogando, mas pelo fim da hipocrisia! Que se libere tudo e que cada um morra como preferir: no meio da bosta do Zebu ou dos Homens!
Minha lista pessoal poderia tomar mais algumas páginas, mas o Leandro me mata, porque já estou atrasada com este artigo. Então, coragem! Complemente a lista com as suas preferidas e diga não! Se for capaz!

Quarto tiro - 23/08/2006




Esperando Vera Fischer

Pela primeira vez na minha vida, eu não sei em quem votar! Não sei! Suplico que alguém me mostre o contrário, que me diga que estou enganado e que existem sim homens públicos comprometidos com a sociedade que os elege.
Desculpem-me, mas não dá pra ser romântico; sonhar com mocinho, um herói, neste mundo de bestas, nesta bomba relógio que é este triste planeta. E o aeroporto não é rota de fuga pra lugar nenhum. Que pena! O mundo acabou antes da grande virada na corrida espacial. Ninguém vai escapar desta vez!
O que estamos vivendo hoje é pior que a Inquisição, pior que a Ditadura, pior que a Escravidão, pior que o Holocausto, pior que um filme do Van Damme. O que estamos vivendo hoje é o “espetáculo do crescimento” de uma espécie moralmente devastada, que cresce e evolui, mas sem respeitar nada.
De que adianta tanta evolução científica se, para o pior dos vírus, o da falta de ética, de escrúpulos, de vergonha, não há sequer pesquisa em andamento? Quem poderia financiá-la?
Será que no âmbito municipal poderíamos descolar uma graninha para tal pesquisa? Hmm, acho que não. É tanta obra por fazer, tanto tapete preto pra estender, tanto cartel no transporte público para manter... É maratona atrás de maratona para vender uma imagem saudável desta ilha que se afunda em desorganização, em crescimento caótico, em exploração desmedida. Ilha da cultura parasitária, do funcionário público, “tradicional”... É, daqui não vai sair verba para acabar com o vírus da sem-vergonhice mesmo. Mas nem tem eleição municipal este ano, que bom! Uma preocupação a menos, ou seria a mais?
Procuremos então apoio nas esferas federais do poder. Piorou! Sinceramente, quem deve estar rindo agora é a Regina Duarte, aquela, que tinha medo. E olha que ela ainda tem a novela das oito para protagonizar. E nós, que nem isso temos? Rejeitamos o Lula e doamos ele para adoção também? Ai, se fosse possível! Pouca vergonha! Mexer assim com a esperança de uma nação. Certo ta é o Gabeira, que disse que: ou o Lula é um corrupto (porque sabia de tudo que rola a sua volta), ou é um completo idiota (se não sabia). O que é pior? Não sei. Mas, pra ter resistido “na luta” tanto tempo e quando finalmente o povo, exausto, o coloca no poder, para uma última tentativa de salvação deste país saqueado desde que nasceu: o cara chega lá e faz esta merda toda... Era melhor ter continuado analfabeto, ou perdido a língua, ao invés do dedo. Então votamos em quem? Nele? De novo? Não, “errar é humano, persistir no erro é burrice”. No Alckmin? A citação anterior também vale para ele e seus partidários. Aliás, nem os seus partidários colocam fé na sua candidatura, por que é que eu vou colocar? Na Heloísa Helena? Eu hein! Não confio mais nessa gente com cara de messias que vem pra moralizar tudo e salvar a pátria. E o que é que a louca e o PSOL vão fazer com o congresso? Dar mesada pra todos pra poder governar também? A coisa ta Russa! Ou melhor, a coisa ta Brasil! Um braseiro! Uma brasa, mora? Moro, mas, se pudesse, me mudava!
Outra que atualmente não tem novela das oito para protagonizar é a Vera Fischer. E aí resolveu baixar por aqui e fazer uma graninha junto aos coronéis do governo estadual, com os quais não vou perder meu tempo pedindo verba para pesquisa contra o vírus da safadeza. Coronéis e ditadores! Que outros nomes podem ter estes senhores, que criam conselhos arbitrários, modificam o curso de leis de incentivo à cultura descaradamente, sem o menor respeito a nada que não seja seu benefício próprio e dos seus. Ou vão-me dizer que é normal a filha do governador, travestida de produtora, dar “carteiraço” por aí, pra financiar produções cariocas? Isso sem considerar que ela é um desafino ininterrupto!
A simples criação desta secretaria utópica que reúne cultura, turismo e lazer já é um ato arbitrário evidente, que facilita o caminho para o “balcão de negócios” que é este governo. Num estado de tremendo potencial turístico, explorado de forma insana, é óbvio que os profissionais da cultura sairão lesados desta equação entre setores tão distintos do governo.
Mas isso não é nada! No caso da Lei de Incentivo Estadual, criaram um “comitê gestor”, que se interpõe entre a avaliação do Conselho Estadual de Cultura e os projetos que ela, de forma legítima, aprova. Esta turminha do barulho, liderada pelo Sr. Edson Machado, que também é diretor geral da Fundação Catarinense de Cultura (um trabalhador abnegado!), está fazendo a maior festa por lá: estacionam projetos já aprovados, retém dinheiro já captado, priorizam o que lhes interessa politicamente, enfim... Nenhuma novidade, velhas raposas, velhas práticas.
Mas se você assistir a propaganda política do governo, meu Deus! Que governo legal é este, com sua perspicaz política descentralizadora! Qualquer um que disponha dez minutos do seu tempo pode verificar o quão inoperante são estas células descentralizadas da administração estadual, que só servem mesmo para cabide de emprego, na verdade um luxuoso “closet” de empregos!
Hoje, a imprensa está noticiando que o nome do nosso excelentíssimo governador foi, finalmente citado no caso da SC Genéricos. Será que daí vai sair um pouquinho de justiça? Será que consigo algum apoio destes laboratórios, negociados pelo governo de forma suspeita, para minha cruzada contra o vírus da cara-de-pau?
Mas, para o Sr. Machado, somos mesmo é um bando de invejosos: “a Vera tem um imóvel aqui”... E daí? ...“representa nosso potencial artístico”... (???) Só se for o dele! Que feio, Sr. diretor da FCC, como o senhor é mal informado! Nosso real potencial artístico está aqui! Sendo arduamente produzido nesta terra de faroeste! Cinema, Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, da mais alta qualidade, voltadas para o futuro, ousadas e não rançosas e arqueológicas como aquilo que o senhor pensa ser nosso potencial artístico. Afinal, o senhor lê os projetos que recebe ou não?
É por isso, Sr. Luís Henrique e Sr. Edson Machado, que não temos inveja da Vera Fischer, tenho inveja é dos marcianos, dos plutonianos, que, com certeza vivem melhor do que nós, mesmo sob condições climáticas pavorosas.
Quanto à ex-miss, “grande dama do teatro catarinense”, estaremos na primeira fila para assisti-la. Já comecei a guardar dinheiro para poder pagar o ingresso.
Mas cuidado Vera Fischer! Porque a porcelana é fina, o telhado é de vidro e o tempo, este ingrato companheiro, já nos tira o esplendor da juventude! E a paciência também!
Paulo Vasilescu
Fpolis, 23 de agosto de 2006